6 de Janeiro e o comportamento de manada

Atualizado: 5 de out.


Há um ano atrás acontecia uma invasão do Capitólio americano por parte de um grupo de manifestantes influenciados por discursos de Donald Trump, no qual o ex-presidente dizia que as eleições de 2020 haviam sido fraudadas por apoiadores do partido democrata.


Na foto é possível ver várias pessoas agitando bandeiras dos Estados Unidos e de apoio ao ex-presidente Donald Trump, várias delas em cima de monumentos históricos.
Foto tirada durante o dia 6 de Janeiro, no momento em que manifestantes protestavam em frente ao Capitólio. Foto: Wikimedia Commons.

Um ano após o ocorrido irei analisar a relação entre este violento incidente e o chamado "comportamento de manada", que descreve como as pessoas podem ser influenciadas por seus semelhantes de modo a adotar certas atitudes de forma completamente emocional, sem considerar lógica ou razão.


O dia começa com uma manifestação, invocada com intuito de reforçar a falsa alegação de Trump de que a corrida presidencial de 2020 havia sido fraudada. Antes que o Congresso certificasse os resultados das eleições, milhares de apoiadores do ex-presidente se reuniram no National Mall, ao sul da Casa Branca, e ouviram por horas enquanto alguns dos defensores mais proeminentes de Trump, incluindo seu advogado pessoal, o ex-prefeito de Nova York Rudolph W. Giuliani, promoviam fake news.

Os organizadores do comício disseram ao Serviço de Parques Nacionais que previam trinta mil pessoas comparecendo. A polícia disse que o tamanho da multidão antes do protesto era possivelmente de 80.000 pessoas, de acordo com o então secretário do Exército, Ryan McCarthy. O tamanho da multidão no comício foi de pelo menos 10.000, de acordo com a Associated Press.


Ao meio-dia, a multidão se dirige para perto da Casa Branca, onde Trump inicia um comício:

"Nós nunca vamos desistir. Nunca vamos ceder", Trump diz à multidão.

Ele conclama o vice-presidente Mike Pence - como presidente do Senado - a rejeitar a vitória de Biden e enviar os votos de volta aos estados.


"Mike Pence, espero que você defenda o bem de nossa Constituição e o bem de nosso país", disse Trump. "E se você não fizer isso, vou ficar muito decepcionado com você."


Enquanto isso, antes mesmo de Trump terminar seu discurso, as multidões de seu comício começam a se reunir fora do Capitólio dos EUA.


Quase ao mesmo tempo, Pence libera uma carta, chamando seu papel na certificação dos votos eleitorais de "em grande parte cerimonial", essencialmente dizendo que não agirá como Trump pediu. “Meu juramento de apoiar e defender a Constituição me impede de reivindicar autoridade unilateral para determinar quais votos eleitorais devem ser contados e quais não,” escreve Pence.


O Capitólio


Às 13 horas e 5 minutos, dentro do prédio do Capitólio, Nancy Pelosi bate o martelo para iniciar a sessão conjunta do Congresso.


Pouco depois, Trump termina seu discurso. "Estamos indo para o Capitólio", diz ele. "Vamos tentar dar a eles [republicanos] o tipo de orgulho e ousadia que eles precisam para recuperar nosso país." Após discursar, Trump volta à Casa Branca. Ele não vai ao Capitólio.


Nos degraus da parte de trás do Capitólio, os manifestantes entram em conflito com a polícia, que corre de volta para o prédio. Manifestantes assistindo do lado de fora aplaudem quando uma multidão rompe as barricadas finais das forças de segurança.


Dentro do prédio, tanto a Câmara quanto o Senado prosseguem, com os legisladores aparentemente inconscientes do caos do lado de fora. Manifestantes quebram janelas e sobem no Capitólio. Eles abrem as portas para outros seguirem e o caos se instala, com mais de 140 policiais acabando feridos e um total de 5 mortos.


Quão fácil é influenciar uma multidão?


Iremos agora verificar as estatísticas coletadas após o evento:

Em números levantados pelo jornalista Alan Feuer do New York Times, das mais de 700 pessoas que foram acusadas até agora, apenas um em cada 10 era membro de um grupo extremista de extrema direita. 12% tinham antecedentes militares. Mais da metade tinha empregos de colarinho branco ou possuía seus próprios negócios. Haviam médicos, advogados, professores substitutos, diáconos da igreja. Havia um funcionário do Departamento de Estado.


Tendo isto em mente, podemos observar que só uma pequena parte da multidão era composta por incitadores e radicais. A grande maioria dos manifestantes eram pessoas comuns, que se descrevem e foram descritos por pessoas que os conhecem como bons vizinhos, freqüentadores de igrejas, líderes comunitários. Muitos deles nunca tinham sido particularmente envolvidos com política no passado.


Por que isso é importante? Por que demonstra claramente que não é necessário que exista um grupo inteiro composto por pessoas decididas a tomar uma decisão. Somente uma pequena porcentagem de indivíduos tomando atitudes com confiança influenciam um grande número de pessoas. Isso se chama Mentalidade de Rebanho, ou Mentalidade de Manada.


Aliando o discurso inflamatório de Trump, a insatisfação e o medo causados pela pandemia de COVID-19, as incertezas sobre o futuro do país, muitos americanos simplesmente foram para a rua para extravasarem as suas emoções negativas, virando massa de manobra para um pequeno grupo de pessoas da extrema-direita, que já planejavam há algum tempo uma ação mais "forte" em relação às eleições.


Essas pessoas acabaram sendo levadas à justiça após o evento, muitas sendo isoladas pelas suas comunidades, amigos e parentes, perdendo emprego e bolsas escolares, como consequência de terem participado da manifestação. Ao serem entrevistadas, elas dizem: "Se eu pudesse, não teria tomado essa decisão. Não teria saído de casa naquele dia."


Brasil e as eleições de 2022


Neste ano teremos eleições presidenciais no Brasil, assim como eleições para a Câmara, Senado e governo dos Estados. O que podemos esperar?


Aqui, como nos Estados Unidos, temos diversos grupos de direita e extrema-direita em território brasileiro espalhando fake news em relação à diversos temas, tais como a COVID-19, vacinas, urnas eletrônicas, censura, etc. Um exemplo é o post abaixo, publicado pela organização MBL (Movimento Brasil Livre), sobre as políticas de verificação de fatos do Facebook.

Há inclusive uma comissão na câmara para verificar notícias falsas, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito - Fake News, com a finalidade de investigar os ataques cibernéticos que atentam contra a democracia e o debate público, a prática de cyberbullying sobre os usuários mais vulneráveis da rede de computadores, bem como sobre agentes públicos e o aliciamento e orientação de crianças para o cometimento de crimes de ódio e suicídio.


Com um grande fluxo de informações que raramente são verificadas espalhadas por Whats App e outros mensageiros, a possibilidade de discursos inflamados realizados pelo atual presidente Jair Bolsonaro e um clima de insatisfação geral fomentado pela crise econômica, alta dos preços e variantes da pandemia, não é um absurdo prever que algo semelhante ao ataque de 6 de Janeiro ocorra no Brasil, em 2022.

 

Fontes:


Podcast The Daily: Jan 6, Part 1: 'The Herd Mentality' - https://podcasts.apple.com/us/podcast/jan-6-part-1-the-herd-mentality/id1200361736?i=1000546990069


Wikipédia, artigo sobre "Comportamento de Manada": https://pt.wikipedia.org/wiki/Comportamento_de_manada


Artigo do El País sobre Fake News: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/18/actualidad/1526600912_648575.html


Números do LA Times: https://www.latimes.com/politics/story/2022-01-05/by-the-numbers-jan-6-anniversary


Site do Senado sobre a CPMI das Fake News: https://legis.senado.leg.br/comissoes/comissao?codcol=2292