A Copa do Preconceito

Atualizado: 1 de set.

Estamos há alguns meses do maior evento de futebol do mundo. A Copa do Mundo começa no dia 21 de novembro e irá acontecer no Catar, país do Oriente Médio. Embora o evento comece oficialmente só daqui a seis meses, o país e a FIFA já acumulam envolvimento em escândalos, acusações e crimes por conta do evento.


O Catar não possui um futebol relevante, essa será a primeira Copa do Mundo que a seleção local irá participar. O único título significante que registra é o da Copa da Ásia, conquistado em 2019. Além disso, o país está envolvido em escândalos por causa da realização do evento desde 2010, quando foi escolhido. Desde então é acusado de subornar a FIFA para que fosse escolhido como país sede.


Mas vamos um pouco além. O país é uma monarquia absolutista, governado por Tamim Bin Hamad al-Thani desde 2013 e tem como religião oficial o Islamismo, ambos com características extremamente patriarcal, machista e conservadora e é aí que mora o perigo.


Tradições e conservadorismo


Em um mundo onde tem se lutado cada dia mais pela diversidade e aceitação de minorias, o futebol tem evoluído a passos lentos. Sendo um dos esportes mais machistas e conservadores, colocando em risco a comunidade LGBTQIAP+, no que é hoje considerado o maior evento de futebol do mundo dentro e fora dos campos.


Dentro do campo, temos o exemplo do único jogador australiano em atividade assumidamente gay. Joshua Cavallo, que se assumiu gay aos 21 anos, é um dos principais jogadores do Adelaide United, cotado pela seleção da Austrália para representar o país nos jogos. Porém, o jogador já sinalizou ter medo de representar seu país no mundial por ser assumidamente gay.


O medo do jogador não é infundado. O país sede da Copa do Mundo de 2022 proíbe demonstrações de afetos entre membros da comunidade LGBTQIAP+, sob pena de prisão podendo atingir a pena de morte.


Nasser Al Khater, líder da comissão organizadora, nega que a comunidade está ameaçada ou será atacada durante o evento, alegando que “Ninguém se sente inseguro aqui”, em entrevista à uma emissora de TV e em resposta a fala de Joshua.


Fora do campo, o país tem assumido o posicionamento de “pode ser membro da comunidade LGBTQIAP+, mas não pode demonstrar.”. O major-general Abdulaziz Abdullah Al Ansari, comandante de segurança do Catar, declarou não poder garantir a segurança da comunidade caso decidam levar bandeiras LGBT’s aos estádios ou às ruas do país.

As dificuldades enfrentadas pela comunidade LGBTQIAP+, de ir ao maior evento de futebol do mundo, ganhou mais um capítulo nos últimos dias. Após pesquisa feita por um canal de esporte sueco, que entrou em contato com hotéis indicados pela FIFA. O canal se passou por um casal gay recém-casado, que buscavam aproveitar o evento, recebeu negativa de pelo menos três hotéis, que alegaram “não poder acomodar esse público”.


Mais uma vez a comunidade LGBTQIAP+ tem seus direitos básicos ameaçados, como o de ir e vir, o de demonstração de afeto e de poder ser inclusa em meios onde deseja. Pode ser apenas um evento, onde turistas ricos vão para gastar seu dinheiro, ou como usado dentro da comunidade LGBTQIAP+, seu “pink money”, mas vai além disso. Demonstra o risco que a comunidade local corre todos os dias vivendo naquele país.


O não posicionamento da FIFA contra as medidas tomadas, junto à comissão organizadora, demonstra claramente o quão machista e retrogrado é o futebol e o quanto ainda é necessário lutar contra o preconceito. Com essas atitudes, a FIFA e o Catar gritam aos quatro ventos como a Copa do Mundo de Futebol de 2022 é a Copa do preconceito.


Texto escrito por Felipe Bonsanto

Formado em Administração de empresas, pós graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia.