A Zootecnia e seu impacto na sociedade



Para a discussão a respeito do tema deste artigo: a Zootecnia, observemos algumas passagens do livro de Gênesis 1:27-31, a saber:

”E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus os criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre a sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que se move sobre a terra. E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a arvore, que há fruto ser-vos-á para mantimento. E a todo animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo réptil da terra, e que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi. E viu Deus quanto tinha feito, e eis que era muito bom, e foi a tarde e a manhã, o dia sexto”

Essas cinco passagens encerram o primeiro capítulo do antigo testamento da Bíblia e, independente da crença do leitor, servem para demonstrar como nossa relação com animais domésticos é algo que nós, seres humanos, consideramos sagrado o suficiente para termos encapsulado no início de um dos livros mais antigos e importantes da civilização ocidental e considerarmos o domínio, a domesticação e a exploração um direito dado por Deus.


Origem do termo e início da ciência


O termo Zootecnia foi criado recentemente se formos comparar com a origem das passagens citadas no livro de Gênesis. Nesse sentido, em 1844, no livro Cours d’Agriculture (Curso de Agricultura), o autor Adrien Étienne Pierre propôs a separação da produção animal e vegetal e buscava uma mudança de paradigma em relação à visão que tínhamos sobre a importância dos animais para o mundo. A palavra “Zootecnia” em si tem fundamento no grego “zoo” que vem de “zoon – animal” e “technê – arte” que significa a arte de criar animais. Após alguns anos da publicação do livro, o autor e naturalista alemão Emile Baudement desenvolveu doutrinas e bases científicas para a Zootecnia, fundando assim a ciência como uma área e uma profissão de zootecnista.


Mesmo que o conceito e a área científica tenham sido criados recentemente, vale relembrar que o ato de criar e extrair produtos diretos ou indiretos de animais é algo que fazemos há milênios. Os egípcios coletavam mel de abelhas e os primeiros fazendeiros não apenas produziam gado para comerem carne, mas também para usar suas forças nas lavouras. Couro, ovo e leite são produtos utilizados pela humanidade há tanto tempo que a vaca e até a galinha já foram e ainda são adoradas por culturas ao redor do mundo e possuem até representações mitológicas (vide Audumbla, ser primordial na mitologia nórdica, literalmente uma vaca que representa a mãe natureza).


A partir disso, torna-se claro como tal área do saber é essencial para o mundo atual, especificamente para o Brasil. Somos um dos maiores produtores de carne mundialmente e, ainda assim, a profissão de Zootecnia não é apenas desconhecida, como também é até atacada por profissões “vizinhas”, devido acreditarem a vários mitos e algumas verdades.


História e Disseminação no Brasil



Ao falarmos da história da Zootecnia no Brasil, temos que se lembrar do professor Octávio Domingues que foi praticamente o líder do movimento que levou a Zootecnia a ser encarada como uma área de estudo e prática separada da Agricultura e Veterinária. Em 1951, numa reunião realizada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) foi fundada a Sociedade Brasileira de Zootecnia. Nos anos seguintes, duas novas reuniões foram realizadas até que, em 1953, na UFRJ, tendo 16 participantes representantes de 10 instituições de ensino de formações em Agronomia e Veterinária existentes à época e que ministravam as disciplinas voltadas ao campo da Zootecnia, elaborou-se e criou-se o primeiro currículo de formação Zootecnia. Entretanto, apenas em 1966 é que o curso de graduação em Zootecnia se deu como opção de formação em nível superior e, após superar posições contrárias e obstáculos financeiros, o estabelecimento do projeto do curso foi acolhido pela Pontifícia Universidade Católica do Uruguaiana. No dia 13 de março do mesmo ano houve a primeira aula, data da qual hoje é simbolicamente considerada como o Dia do Zootecnista pela comunidade acadêmica e profissional.


Conflitos e resoluções


Conforme discutimos, a Zootecnia, pelo menos no Brasil, sofre certo atrito com algumas profissões “vizinhas”, como a Veterinária e a Agronomia. A razão para tal atrito é parte legislativa e cultural, pois existe certo preconceito advindo dessas duas áreas, o que obviamente não deve ser usado como arma ou justificativa para o ódio contra nenhuma área. Devemos saber diferenciar entre pessoas mal informadas – e talvez até mal-intencionadas – de um grupo de profissionais capacitados e bem orientados, que são a grande maioria em ambas as áreas citadas. Fazemos isso ao entender que esse preconceito surge de um problema legislativo relativamente simples, o da delimitação da área de trabalho do Zootecnista.


Os tramites legislativos são complexos, mas de forma resumida, em 1968, foi criada uma lei para se delimitar os trabalhos exercidos por um zootecnista. Acontece que, visto a interdisciplinaridade de tal profissão, o modo em que se foi descrito os serviços que um zootecnista – e apenas um zootecnista – poderiam e deveriam exercer, acabou por conflitar diretamente com as áreas de atuação “vizinhas”, como Agronomia e Medicina Veterinária, por exemplo. Esse atrito legislativo acabou por gerar um desentendimento social, entre tais profissões. Para tanto, é importante comentarmos também que, em 2021, um projeto de lei (N° 1428, DE 2021) foi proposto para justamente alterar a Lei Nº 5.550 (de 4 de dezembro de 1968), que é a “responsável” por esse conflito, o que mostra que existem pessoas cientes de insuficiência legislativa e que buscam retificá-la. Apesar disso, o projeto foi retirado pelo próprio autor, mas sua mera existência já indica um progresso.


Impactos, atualidades e futuro do campo



Visto a “juventude” da Zootecnia como área de estudo independente, porém ancestral como prática humana, não é de se surpreender que essa profissão estivesse envolvida em diversas pautas polêmicas e atuais. A indústria pecuarista, em especifico, é alvo de diversos ataques dos movimentos ambientalistas e veganistas, no que diz respeito às possíveis causas e efeitos do aquecimento global, à mudança climática e aos maus tratos causados aos animais em produções de diversos tamanhos. Além disso, há também comentários sobre a culpabilidade da indústria de produção animal em relação à eficiência dos antibióticos, cujas propriedades fora de patamares higiênicos adequados mantêm sua produção através de doses altíssimas de antibióticos nos alimentos dos animais, o que em longo prazo promete invalidar os efeitos de tais medicamentos.


Como graduando em Zootecnia, concordo que todos esses ataques têm seus fundamentos e que a indústria pecuarista possui sim seu lado podre. Entretanto, algumas indústrias, apesar de gigantesca, são apenas uma das vertentes da área zootécnica como um todo. Para tanto, as críticas voltadas às indústrias pecuárias são coerentes ao notar-se que as indústrias direcionam práticas que fogem dos ideais zootécnicos fundamentais, como, por exemplo, a Nutrição, o melhoramento genético e o bem-estar animal.


Nesse sentido, é claro que existe potencial para melhoria e otimização das produções, considerando que o Brasil é o maior exportador de frango do mundo – o terceiro maior produtor e consumidor –, posso dizer que nós somos os que mais devemos buscar excelência na área.


A Zootecnia como ciência apresenta algumas inovações atraentes e outras nem tanto para os nossos costumes culturais. Como dito anteriormente, um ataque comum à produção animal é devido aos maus tratos dos animais ou à suposta imoralidade de matá-los/explorá-los para consumo próprio. Por essa razão, a proposta tecnológica que resolveria esse empecilho é justamente a da carne celular, cultivando células em meios de cultura para evitar sofrimento e morte de qualquer animal no processo. Essa inovação tecnológica será justamente avançada pela Zootecnia e pela Universidade Federal do Paraná, já que está planejada de oferecer uma disciplina nomeada “Zootecnia Celular”, a fim de preparar os alunos com o conhecimento necessário para refinar ainda mais tal revolução.


Diante disso, outras opções éticas e sustentáveis são oferecidas pela Zootecnia como a produção de carnes de inseto que é destinada ao consumo animal e humano. Essa produção é uma das mais economicamente eficientes, ecologicamente positivas e, ainda por cima, saudáveis. Assim, todas as características ambientais que normalmente se evitam em uma produção de animais domésticos apresentam espaços apertados, úmidos e escuros, que são justamente as características ideais para a produção de insetos, o que os torna uma ótima opção e solução para os problemas encontrados na indústria pecuarista.


Conclusão


Nós manejamos, produzimos, exploramos, domesticamos e consumimos animais há muito tempo, mesmo que hoje em dia haja discussões importantes sobre as tecnicidades e a moralidade das consequências e das atividades em si, a realidade é que não existe uma previsão de um mundo onde iremos deixar de realizar esses atos.


No entanto, isso não deve ser motivo para desesperança em relação aos problemas e efeitos colaterais de determinas práticas. A Zootecnia é a ciência que alimenta o mundo e, por isso, deve ser conhecida, respeitada, explorada e criticada com coerência, jamais descartada, mesmo que sua existência contribua ou até seja a causa de problemas globais. Por fim, acreditamos que ela também possa ser a solução desses problemas.



Texto escrito por Heictor Bellato Graduando em Zootecnia, apaixonado por Ciência e Filosofia. Também acredita que são as pessoas que podem trazer as soluções para os problemas do mundo.

 

Bibliografia


https://pt.wikipedia.org/wiki/Zootecnia


https://www.ufmt.br/curso/zoocba/pagina/a-zootecnia/2967


https://umsoplaneta.globo.com/sociedade/noticia/2022/06/09/ha-35-mil-anos-galinhas-eram-alvo-de-adoracao-e-nao-comida.ghtm


https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2022/02/24/internas_economia,1347560/brasil-e-terceiro-consumidor-de-carne-bovina-no-mundo.shtml


https://www.embrapa.br/suinos-e-aves/cias/estatisticas


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/L5550.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%205.550%2C%20DE%204%20DE%20DEZEMBRO%20DE%201968.&text=Disp%C3%B5e%20s%C3%B4bre%20o%20exerc%C3%ADcio%20da,obedecer%C3%A1%20ao%20disposto%20nesta%20Lei.


https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=8952378&ts=1618587518761&disposition=inline#:~:text=PROJETO%20DE%20LEI%20N%C2%BA%20%2C%20DE,Art.


https://www.bbc.com/portuguese/geral-47125834


http://abz.org.br/historia-da-zootecnia/