Desastre climático no Paquistão

Atualizado: 15 de set.

Desde junho de 2022, grandes inundações estão acontecendo no Paquistão. Elas foram causadas por chuvas de monção mais pesadas do que o normal e derretimento de geleiras que se seguiram a uma severa onda de calor, tudo isso ligado às mudanças climáticas que vem ocorrendo em nosso planeta.


Quase 80 por cento das colheitas na província de Sindh, no Paquistão, foram destruídas.
Quase 80 por cento das colheitas na província de Sindh, no Paquistão, foram destruídas.

Esta é a inundação mais mortal do mundo desde as inundações do sul da Ásia em 2017 e descrita como a pior da história do país. Em 25 de agosto, o Paquistão declarou estado de emergência por causa das inundações. Em 29 de agosto, o ministro das mudanças climáticas do Paquistão disse que cerca de um terço do país estava submerso, afetando 33 milhões de pessoas. O governo do Paquistão estimou a perda de US$ 30 bilhões até agora com inundações em todo o país.

Mais de 500 mil casas foram destruídas pelos alagamentos e chuvas, e cerca de 1 milhão de casas foram danificadas. Sindh e Baluchistão são as duas províncias mais afetadas em termos de impacto humano e de infraestrutura. Trabalhadores humanitários alertaram que a falta de água potável causa um aumento de doenças transmitidas pela água suja, como diarréia, cólera, dengue e malária.


Mais de 1300 pessoas já morreram devido aos alagamentos nestes últimos três meses, incluindo cerca de 500 crianças. Mais de 600 mil pessoas estão vivendo em acampamentos temporários por causa das enchentes.

O ministro das Finanças do Paquistão, Mifta Ismail, disse que "As inundações causaram pelo menos US$ 30 bilhões de danos no Paquistão." Sherry Rehman, a ministra das mudanças climáticas, disse em 29 de agosto que "um terço" do país estava debaixo d'água e que "não havia terra seca para bombear a água", acrescentando que era uma "crise de proporções inimagináveis". Campos agrícolas também foram devastados pela água.

Imagens abaixo mostram o antes e depois das enchentes:



O que são Chuvas de Monções?


As monções demarcam um tipo de variação climática que ocorre na porção sul e sudeste da Ásia, que por isso também é chamada de Ásia das Monções. Trata-se de um fenômeno atmosférico que propicia a ocorrência de intensas chuvas em um período do ano e secas rigorosas em outro.


Os ventos de monções caracterizam-se pela variação de sua direção de acordo com a mudança das estações do ano. Ora o seu movimento vai do Oceano Índico para o continente, caracterizando a monção de verão ou marítima, ora vai do continente asiático para o oceano, caracterizando a monção de inverno ou continental.


As monções estão se tornando mais intensas e quentes por conta da mudança climática. Todo ano, ao longo de 4 meses, elas trazem 70% das chuvas que caem no subcontinente indiano. Em linhas simples, o verão aquece o ar sobre o continente indiano que se eleva. Isso praticamente puxa o ar úmido do Oceano Índico que também sobe, esfria e precipita com o Himalaia servindo de barreira ao Norte. Na verdade, o sistema é cheio de nuances e raramente a distribuição da chuva é regular – tanto podem desabar tempestades como haver períodos longos sem chuva alguma. Um trabalho que saiu em abril na Earth System Dynamics mostra que está caindo cada vez mais água ao mesmo tempo em que essa variabilidade também está aumentando, tudo por causa da mudança climática. Uma atmosfera mais quente puxa ainda mais água do Índico com picos de precipitação mais acentuados. Outro trabalho, publicado na Earth-Science Reviews em março, mostra que a poeira poluída nas metrópoles indianas contribui para o aumento das fortes precipitações.


Derretimento das geleiras do Himalaia


O conjunto de montanhas mais altas do mundo é também o mais ameaçado pelos efeitos do aquecimento global. É o que indica uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de Leeds, na Inglaterra. O estudo aponta que a cordilheira do Himalaia, que abriga o Everest, tem perdido gelo em velocidade recorde.


Segundo os pesquisadores, as geleiras estão derretendo dez vezes mais rápido nas últimas décadas do que a média de derretimento desde a Pequena Era do Gelo, um período de resfriamento da Terra que acabou por volta de 1800. Na prática, isso significa que o Himalaia perdeu cerca de 40% da sua área desde então. Para chegar nessas estimativas, a equipe da Universidade de Leeds usou imagens de satélite e modelos digitais de elevação, simulando qual seria a superfície do gelo entre 400 e 700 anos atrás — e, portanto, concluindo quanto foi perdido.


O derretimento “excepcional” do Himalaia, nas palavras dos pesquisadores, também é recorde se comparado ao de outras geleiras do mundo. A título de comparação, a quantidade de gelo que a cordilheira perdeu desde a Pequena Era do Gelo, algo entre 390 km³ e 586 km³, é equivalente a todo o gelo contido hoje nos Alpes da Europa Central, no Cáucaso e na Escandinávia somados.


Para os pesquisadores, esse degelo acelerado e desenfreado do Himalaia não pode ser dissociado do aquecimento global. “Nossas descobertas mostram claramente que o gelo está sendo perdido nas geleiras do Himalaia a uma taxa pelo menos dez vezes maior do que a taxa média nos séculos passados. Essa aceleração na taxa de perda surgiu apenas nas últimas décadas e coincide com a mudança climática induzida pela humanidade”, afirma à imprensa Jonathan Carrivick, um dos autores do estudo e chefe adjunto da Escola de Geografia da Universidade de Leeds.


Esse gelo todo, é claro, acaba se convertendo em líquido. A estimativa é que esse derretimento das geleiras do Himalaia nos últimos séculos tenha elevado entre 0,92 milímetros (mm) e 1,38 mm o nível do mar em todo o mundo.


Como ajudar?


Doações estão sendo arrecadadas por organizações sem fins lucrativos, tais como a Alkhidmat e a Cruz Vermelha, além do ACNUR da ONU. Abaixo estão os links das campanhas de doação:




Texto escrito por Eliézer Fernandes

Fundador e editor-chefe do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais.


 

Fontes:


Artigo oficial da Wikipédia sobre as enchentes do Paquistão: https://en.wikipedia.org/wiki/2022_Pakistan_floods


Artigo da Al-Jazeera: https://www.aljazeera.com/economy/2022/9/7/after-record-floods-now-pakistan-has-to-worry-about-economy


Monções: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/moncoes.htm


https://climainfo.org.br/2021/06/23/o-aquecimento-global-esta-alterando-as-moncoes-do-sul-da-asia/


Geleiras: https://revistagalileu.globo.com/Um-So-Planeta/noticia/2021/12/geleiras-do-himalaia-derretem-em-taxa-recorde-desde-pequena-era-do-gelo.html