Histórias de Refúgio: Nicarágua

Atualizado: 1 de set.

Hoje iremos contar a história de uma nicaraguense, que chamaremos de Nadia Jorge (nome fictício para preservar sua identidade). Nadia tem 30 anos, e viveu horrores pouco conhecidos no Brasil: fugir de seu próprio país por ameaças de violação de direitos e, do dia para a noite, tornou-se uma refugiada na Costa Rica.


“Infelizmente a ignorância e a falta de estudos de um povo pode fazer com que tome decisões errôneas referentes a escolher presidentes ou líderes que governam um país ou uma cidade”, assim começa Nadia em sua fala dolorida, relembrando a fuga de seu país. O depoimento da mulher nascida na Nicarágua fala sobre o governo do presidente Daniel Ortega, que está há mais de 11 anos no poder devido a, segundo ela, subterfúgios para a sua manutenção na presidência do país.


De acordo com Nadia, nunca houve eleições transparentes na Nicarágua, já que Ortega sempre manipulou resultados com ajuda de mais de metade das empresas que estão na Nicarágua, que são apoiadoras da família Ortega Murillo.


O começo: Terra dos Campesinos


No ano de 2018, Nadia e seu esposo Elton estavam trabalhando quando seus colegas os aconselharam a voltar para casa com muito cuidado naquela noite, pois haviam muitos protestos nas ruas. As notícias sobre um possível levante da população começaram a se espalhar.


Dias antes, o presidente Ortega havia ordenado o desmatamento da parte sul da reserva biológica Índio Maiz e simulado um incêndio, a fim de tirar todas as árvores do local sem levantar suspeitas. Ao saber dessa manipulação, os ambientalistas protestaram contra esse ato, sendo totalmente ignorados pelo governo. Além desse desmatamento, Daniel Ortega estava mobilizando forças para tirar os campesinos, como são chamadas as pessoas que vivem na zona rural nos países da América Central, de suas terras. Ortega fez um acordo com a China para construir nessa área uma grande ponte que ligasse a Nicarágua ao Panamá e a outra parte do Caribe - projeto esse que não foi concluído.


O governo na época se propôs a pagar um valor que era muito inferior ao que valiam as terras dos moradores daquela região, algo que prejudicaria muito a população local.


O início de uma luta


Sendo assim, os campesinos e os idosos se juntaram pois, além da retirada de suas terras, o governo ia aumentar os impostos, incluindo para pessoas idosas, sendo essa uma boa parte da população campesina.


Esse protesto começou em Ciudad León, e a polícia se mostrou extremamente violenta com a população. Quando os estudantes souberam de tamanha repreensão contra os idosos, se uniram à essa luta e foram às ruas tomando as universidades. Esse levante incomodou de tal forma o presidente que o mesmo mobilizou todas as forças do Estado contra a população.

“O presidente manda em todas as forças do Estado. Tiraram os estudantes das universidades, os mataram dentro do local. No dia 18 de abril, um menino de 15 anos foi assassinado pela polícia, com um tiro na jugular. Ele tinha em sua mochila umas bolsinhas de água, a polícia pensou que era algum tipo de arma e disparou para matar. Depois disso, toda a população saiu às ruas porque o presidente estava matando estudantes, violando direitos e aumentando os impostos do povo”, declara Nadia.

Por todos os acontecimentos, Nadia e Elton não voltaram para casa pelas ruas principais, mas sim por pontos cegos, por dentro da cidade, de moto. Quando estavam quase chegando em casa, passaram por um beco onde havia acontecido um confronto entre a polícia e estudantes, os militares se defendiam com rifles, bombas de gás lacrimogêneo e os estudantes se defendiam com armas não letais, conforme as palavras da nicaraguense. Assim que o casal entrou nesse beco, havia um policial pronto para disparar contra eles, mas “por um milagre, apareceu outro policial e fez o colega abaixar a arma e nos deixar sair dali”, conta Nadia emocionada. “Parecia uma zona de guerra”.


Juntando-se aos protestos


Depois de todos esses acontecimentos, Nadia e Elton decidiram marchar junto à população, com os estudantes, pois sentiram que seus direitos também foram violados, junto àqueles que estavam lutando e morrendo naquela noite.


Nos dias seguintes, em seu trabalho, Nadia começou a recolher doações de água, comida e remédios, para levar escondido aos estudantes que estavam ainda nas universidades. Ela e seu marido usavam pontos cegos para entregar as doações coletadas, já que tinham que burlar o sistema policial montado para acabar com os protestos estudantis.


Em um certo ponto, já não podiam mais chegar ao trabalho, já que a polícia fiscalizava todos os ônibus a caminho do trabalho. A empresa em que o casal trabalhava disse que enviaria um grupo de pessoas para a Costa Rica, por causa da situação atual, assim poderiam se manter seguros e trabalhando, garantindo sua própria renda e produção. O casal não hesitou e se candidatou para essa oportunidade. Primeiro, enviaram a Nadia, mas não seu esposo.


A empresa disse que dentro de um mês levariam todos que estavam na Costa Rica de volta à Nicarágua e, conforme uma conversa de Nadia com seu esposo, que ainda estava em seu país de origem, o casal resolveu que a moça não deveria voltar para a Nicarágua. Ela então pediu demissão da empresa e arranjou para que seu esposo chegasse são e salvo na Costa Rica.

“A empresa se assustou com meu pedido de demissão, pois se perguntaram como eu iria me manter no país. Eu pedi ajuda na Casa Sor Maria Romero (instituição dedicada a obras sociais no centro da capital da Costa Rica, em San José), logo depois veio meu esposo; ficamos lá por 4 meses. Nessa casa, conhecemos uma pessoa que nos ajudou com a permissão de trabalho, algo bem burocrático no país. Pela empresa, vim com uma maleta de roupa para ficar por 7 dias aqui, mas em 15 de junho de 2022 vai fazer 4 anos que estamos na Costa Rica”, diz Nadia, hoje muito orgulhosa de sua decisão e com sua família aqui.

O casal passou por várias dificuldades, já que ficaram durante muito tempo aguardando os vistos de refugiados. Ao solicitar esse tipo de visto, a pessoa não pode sair do país de destino, e esse processo pode demorar até 5 anos.


Nadia enfrentou uma grande perda nesse período em que esperava pelo visto. Sua irmã, que ainda vivia na Nicarágua, sofreu um acidente fatal de carro, no qual somente o esposo e a filha, ainda bebê, sobreviveram. Nadia foi ao enterro evitando as autoridades, já que era proibida legalmente de sair do país. Mesmo assim se arriscou para ter uma última despedida de sua irmã.


Felizmente Nadia e seu esposo têm agora o visto de residente na Costa Rica, já que tiveram sua filha no país, hoje com 1 ano de idade.


Quem é considerado refugiado?


Segundo a ACNUR, a Agência da ONU para refugiados, são pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados. Estima-se que existam mais de 25 milhões de pessoas nesta situação hoje em todo o mundo.


É necessário entender que a vida de um refugiado não é fácil, afinal, ninguém pede refúgio em outro país porque quer, simplesmente pelo fato de sair. Abandonar a sua pátria desse jeito dói, têm consequências, mas na maioria das vezes, é a única maneira que uma pessoa tem de sobreviver e proteger sua família.

 

Fontes:


Artigo sobre Ortega e Murillo: https://elpais.com/internacional/2021-10-29/rosario-murillo-copresidenta-ortega-consolida-el-poder-familiar-en-nicaragua.html


Reportagem com denúncias de corrupção na Nicarágua: https://www.ciperchile.cl/2022/02/22/la-red-de-negocios-privados-de-la-familia-de-daniel-ortega-y-rosario-murillo-22-empresas-a-costa-del-estado/


ACNUR: Refugiados – UNHCR ACNUR Brasil