HQ e RI: Onde os mundos se encontram

Atualizado: 1 de set.

As histórias em quadrinhos têm se mostrado uma excelente fonte de conhecimento e informação sobre o passado e o presente de diversas nações, podendo estar mais relacionados com nosso cotidiano do que pensamos.

Esse texto é o primeiro de uma série na qual quero chamar atenção dos leitores à potência que as histórias em quadrinhos (HQs) possuem para nos informar e, mais do que isso, sensibilizar para diferentes fatos históricos e conflitos internacionais que podem nos impactar diretamente, ou não.


Histórias em quadrinhos como mídia


O primeiro ponto é entender o porquê da escolha das HQs. Por muito tempo, a HQ foi pouco valorizada como meio de transmissão de conhecimento ou informação. Além disso, segundo Rogério de Campos em sua obra Imageria, nos anos 1950, as HQs passaram por uma forte campanha de oposição nos Estados Unidos. As acusações eram de que as HQs incentivavam a delinquência juvenil ou até mesmo serviam de instrumento para propaganda comunista, dentre outros absurdos. Após essa onda de ataques, os quadrinhos foram conquistando espaço na indústria cultural americana, porém mais atrelados ao entretenimento juvenil, com as famosas sagas de super-heróis.


Contudo, são inúmeras as temáticas abordadas pelas HQs, desde sempre. À revelia dos debates sobre a origem dos quadrinhos, que vão do ano de 1892 com a publicação de Yellow Kid por Richard Outcault, até quem defenda seu início com as pinturas rupestres, o que importa é que encontramos os quadrinhos como gênero religioso, pouco ortodoxo por sinal, em Christus und die minnende Seele (Cristo e a alma amorosa) de autor anônimo, circulando em conventos entre os séculos XIV e XV.


Há também uma propaganda católica de ataque a Martinho Lutero, o reformador protestante, intitulada: Martinho Lutero, Doutor da Impiedade, Professor da Vilania..., daí para baixo, do ano de 1630 na Alemanha. A política também foi tema de HQ desde tempos longevos, quase sempre como propaganda ou sátira. Nesse segmento, em 1678 na Inglaterra, Francis Barlow publicou a Conspiração Papista, quadrinho denunciando um complô católico para matar o rei Carlos II.

Na mesma Inglaterra, em 1817, Lewis Marks lançaO progresso de Boncy, no qual Boncy é Napoleão Bonaparte, e sua história é satirizada, por motivos óbvios.


Esse panorama serviu para mostrar que HQ é coisa de gente grande também e retrata temas importantes e calorosos para quase todo mundo. Atualmente, o gênero abarca uma grande quantidade de abordagens e focos narrativos, garantindo uma diversidade de pontos de vista importantes em diferentes situações ao redor do mundo.

Talvez o autor mais conhecido do chamado “quadrinho jornalístico” seja Joe Sacco, jornalista e artista originário da ilha de Malta e radicado nos Estados Unidos. Seus trabalhos privilegiam a cobertura de situações de conflito em diversos contextos geopolíticos. Palestina e Notas de Gaza, suas obras mais conhecidas, trazem para a cena o relato das populações israelense e palestina em guerra nos de 1993 a 1995, e não deixam de expor as opiniões e dificuldades do repórter-artista em sua presença nas áreas de conflito. Esse recurso metalinguístico de apresentar para o leitor, ao longo da narrativa, seu processo de trabalho, remete diretamente para o clássico Maus de Arthur (Art) Spiegelman.

Em Maus, Art nos conta a história de seu pai, Vladek Spielgman, judeu polonês sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz. À lá Fabulas de Esopo ou Animal Farm de Orwell, em que animais são antropomorfizados, os nazistas são retratados como gatos e os judeus como ratos (“maus” em alemão). A história é ainda mais complexa, pois Art não isenta seu pai de críticas e a leitura se torna “ambígua” na medida em que a comoção pela difícil trajetória de Vladek se choca com um personagem difícil de se gostar. O contexto do holocausto nazista é adaptado, por Manu Lacernet, em Relatório de Brodeck. Essa obra apresenta Brodeck, outro sobrevivente de um campo nazista, voltando para sua vila de origem e sendo incumbido de relatar por escrito as atrocidades sofridas antes e depois da guerra. As luzes e sombras da tinta nanquim trazem o tom lúgubre adequado à maior catástrofe da história.


Ásia e os mangás


A Ásia é um continente conhecido por sua produção de HQ, com destaque para os mangás japoneses. Acontece que essa linguagem foi fundamental para se construir uma imagem positiva (soft power) de alguns países envolvidos em acontecimentos atrozes, como o próprio Japão, com suas ocupações na Manchúria e Coréia ou seu apoio aos fascistas na primeira metade do século XX. Esse contexto é o plot de uma HQ chamada Gramma da artista sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim. Gramma conta a trajetória de vida de Ok-sun Lee, vendida pela própria família para servir como escrava sexual em “casas de conforto” espalhadas por territórios ocupados pelo exército imperial japonês.


A história da China, após a revolução comunista de 1949, também é contada em Uma Vida Chinesa de Li Kunwu. A trama se desenvolve em três atos: o tempo do Pai (Mao Tsé-Tung), o tempo do partido e o tempo do dinheiro, abrangendo todas as fases do desenvolvimento chinês. Natural que a Ásia provoque um sentimento de admiração e temor por parte do ocidente e isso pode ser visto nas obras de Guy Delisle. Esse viajante canadense passou por grandes aventuras, mas uma das mais impressionantes foi sua estádia na Coréia do Norte relatada em Pyongyang: uma viagem à Coreia do Norte.


Como vimos, HQs são um instrumento muito valioso para se contar histórias e nos conectar com pessoas e contextos que estão muito distantes de nós. Nesse sentido, saber o que se passa com pessoas reais em situações dramáticas pode nos humanizar e gerar um vínculo que desperta revolta e indignação, mas também engajamento e ação. Todo esse processo é um ótimo caminho para criação de um espaço subjetivo em cada ser humano e, porque não, segundo as teses de Theodor Adorno, uma sociedade antifascista, já que regimes totalitários encontram terreno fértil em solo pouco irrigado pela beleza da arte. Aqui as HQs ficcionais também têm espaço. Como estuda Eduard Said em Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente, a criação de signos exóticos e de inferioridade sobre o desconhecido alimentam a ignorância e o medo. Para pensar sobre isso, temos Solitário de Chaboté, que narra a sobrevivência de um ser absolutamente isolado em um farol, numa pequena ilha em alto mar, e que, apesar de sua aparência, só gostaria de conhecer o mundo. Ser capaz de se comover com essa figura é humano, demasiado humano.


Desta forma, essa coluna será, inicialmente, um espaço no qual as HQs nos ajudarão a descobrir como a geopolítica e as relações internacionais podem ser estudadas pela leitura de histórias reais e suas conexões com diferentes situações atuais ao redor do mundo. Assim, a próxima coluna percorrerá os Bálcãs presentes em Área de Segurança: Gorazde de Joe Sacco e Fax de Sarajevo de Joe Kubert e sua atualidade no cenário dessa região no leste europeu.


Texto escrito por Marco Aurélio Cardoso Moura

Professor de Língua Portuguesa no Ensino Médio; formado em Letras pela USP e especialista em Juventude no Mundo contemporâneo pela FAJE-BH. Hoje é mestrando em Educação pela FE-USP e colunista do “Zero Águia”.

 

Fontes


CAMPOS, R. Imageria: o nascimento das histórias em quadrinhos. São Paulo: Veneta, 2015.


CHABOTÉ, C. Solitário. São Paulo: Pipoca & Nanquim, 2019.


DELISLE, G. Pyongyang: uma viagem à Coreia do Norte. Campinas, SP: Zarabatana Books, 2007.


KEUM, S. G. K. Gramma. São Paulo: Pipoca & Nanquim, 2020.


KUBERT, J. Fax de Sarajevo. São Paulo: Via Leitura, 2016.


KUNWU, L. Uma vida chinesa. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2015.


LACERNNET, M. Relatório de Brodeck. São Paulo: Pipoca & Nanquim, 2018.


SACCO, J. Palestina. São Paulo: Veneta, 2021.


________ Notas sobre Gaza. São Paulo: Quadrinhos da Cia, 2010.


________ Área de Segurança: Gorazde: A guerra na Bósnia Oriental 1992-1995. São Paulo: Conrad Editora, 2001.


SAID, E. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 2007.


SPIEGELMAN, A. Maus. São Paulo: Quadrinhos da Cia, 2005.