Liberdade de Imprensa: O direito à informação

Atualizado: 1 de set.

Estar identificada como imprensa não impediu que a jornalista palestino-americana Shireen Abu Aklen, 51, fosse alvejada por um tiro e morta durante uma cobertura jornalística, no último 11 de maio. A sua morte foi motivo de indignação e protestos pelo mundo.

Shireen não foi a única jornalista a morrer neste ano de 2022. De acordo com o IPI, Instituto Internacional de Imprensa e a ONG JSF, Jornalistas Sem Fronteiras, até maio deste ano cerca de 28 profissionais de imprensa foram mortos cobrindo guerras e protestos. No ano passado foram 45.


O violento assassinato, as cenas de ataques ao caixão de Shireen em seu velório e o crescente número de mortes de jornalistas, escancararam mais uma vez o radicalismo e a ódio à liberdade de imprensa. Esse radicalismo que já é presente no Oriente Médio há muitos anos, tem aumentado não só na região mas em todo o mundo, o que acende um alerta do perigo para à liberdade de imprensa e expressão.


Liberdade de Imprensa e Expressão


Desde o início, a imprensa sempre enfrentou desafios, mas provavelmente nunca enfrentou tanta descredibilidade e ódio como tem acontecido no século XXI. A imprensa que já foi admirada e aclamada ao cobrir eventos históricos como o 11 de setembro e a morte do papa João Paulo II, não imaginava que sofreria ameaças, ataques morais e físicos em várias situações, inclusive na cobertura da maior pandemia registrada neste século.


Esses ataques sugiram como um "Cavalo de Tróia", devido ao desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s). A evolução das TIC’s foi fundamental para o aperfeiçoamento da comunicação, o acesso à informação e o alcance de lugares que antes era difícil ou impossível de alcançar. Essa evolução foi e tem sido algo extremamente positiva e necessária para a informação e liberdade de imprensa, porém tem dado voz e força a movimentos que agridem, descredibilizam e atacam a liberdade imprensa.


Através das mídias sociais foi dada voz e alcance a movimentos considerados extintos, como os anti-vacinas, a Klu-Klux-Klan e a movimentos neonazistas. Estes têm se apropriado de canais utilizados pela imprensa para propagação de Fake News e discursos de ódio alegando o uso da liberdade de expressão.


Muitas das vezes, temos visto esses discursos e movimentos sendo respaldados e replicados por líderes políticos, que trabalham para limitar a liberdade de imprensa, seja através de ataques diretos, indiretos, Fake News e até incitando a população contra o trabalho da imprensa.


Em um passado não tão distante, o republicano americano Donald Trump, atacou e ameaçou a imprensa em sua campanha eleitoral de 2016. De lá para cá Trump intensificou seus ataques através de declarações, sansões e Fake News, incitando e colocando a população contra a classe. Exemplo disso, foram as mentiras sobre a cobertura das eleições de 2020 e os ataques a jornalistas durante a invasão do Capitólio em janeiro de 2021, que é o símbolo da democracia americana.


Por aqui, na mesma linha, temos o Donald Trump tupiniquim. O Presidente Jair Bolsonaro se apossou do ódio a imprensa como arma para sua campanha de 2018 e de lá para cá aumentou, cada vez mais, seus ataques. Em um dos ataques mais recentes e notório, o Presidente atacou a jornalista Daniela Lima, chamando-a de “Quadrupede”.


Liberdade de imprensa e ameaça à democracia


Os ataques realizados por Donald Trump, o Presidente Jair Bolsonaro e outros extremistas espalhados pelo mundo, não são por acaso e muito menos são situações isoladas. Essas ações são planejadas, orquestradas e utilizam método. Método que tem por interesse fazer com que a sociedade deixe de acreditar na imprensa livre e o jornalismo vivo, informativo e investigativo, que são pontos fundamentais para a base e garantia da saúde da democracia.


A imprensa quando não tem sua liberdade garantida, é desacreditada ou censurada, diminuindo o seu poder de voz e alcance e assim a possibilidade de acesso à informação, dando espaço para corrupção, crimes contra minorias, perseguição a quem pensa diferente e a rivais políticos. O que aumenta a insegurança, censura e garantia de direitos.


O aumento da onda conservadora da extrema direita no mundo tem feito com que essas ameaças aumentassem cada vez mais. Exemplo disso, temos o crescimento no número de morte de jornalistas em coberturas, como o caso de Shireen Abu Aklen, como já citado anteriormente.


O método para descredibilizar a imprensa e a sua liberdade diante da sociedade, ataques indiretos e muitas das vezes diretos tem refletido em como a liberdade de imprensa e a democracia estão ameaçadas.


Outra comprovação de quão eficiente tem sido o método usado para descredibilizar a imprensa é o estudo realizado anualmente pela ONG JSF (Jornalistas Sem Fronteiras). De acordo com o levantamento feito, dos 180 países pesquisados, 73% deles a liberdade de imprensa é considerada “Muito grave”, “Difíceis” ou “problemáticas”. No índice, o número de países considerados em situação “Muito grave” cresceu, sendo que em 2021 eram 21 países nessa categoria e atualmente são 22.


Já os países que estão no topo da liberdade de imprensa, enquadrados na categoria “boa situação” eram 12 até 2021. Já no levantamento realizado em 2022, são 8.

O Brasil é um caso a parte. O país, que em 2010 quando começou a ser feito o levantamento, ocupava o 86º sexto lugar. Hoje, 2022, o país caiu 24 posições e ocupa a posição 110º, na categoria “Problemáticas”. As posições começaram a despencar após o golpe de 2016 e se intensificou no governo de Jair Bolsonaro.


Justificando a posição em que o Brasil está, as vésperas do dia da Liberdade de imprensa veio à tona a denúncia feita pelo jornalista Leandro Guedes sobre o desaparecimento do correspondente do The Guardian, Dom Phillips e o funcionário da FUNAI, Bruno Pereira. Ambos trabalham na área de conflito entre indígenas, madeireiros e garimpeiros, atuando na denúncia de garimpo e extração de madeira, práticas consideradas ilegais. O sumiço aconteceu na região do Vale do Javari, Amazonas. Até o momento do fechamento desta matéria a informação era de que a Marinha do Brasil, Polícia Federal e o Ministério Público trabalham no caso, porém ainda não há informações sobre os desaparecidos.


Resgatando 07 de Junho


Era 1977, governo de Ernesto Geisel. O Brasil vivia a ditadura militar, um dos momentos mais sombrios da história. No dia 07 de junho daquele ano, algumas centenas de jornalistas assinaram um manifesto contra a ditadura militar, solicitando a liberdade de imprensa e o fim da censura. Sabemos que o Brasil ainda passaria alguns anos até ver o término da ditadura, mas aquele acontecimento marcou o que se é lembrado neste 07 de junho, dia da Liberdade de Imprensa.


Não há dúvidas de que evoluímos, e muito, desde 1977. Porém, a ameaça à liberdade de imprensa ressurge e sonda a democracia. Ainda há muito o que se fazer, mais do que nunca é necessário reforçar e cobrar que a liberdade de imprensa seja respeitada, que o verdadeiro jornalismo tenha voz e garantia de segurança para trabalhar a favor e fortaleça a democracia.


Texto escrito por Felipe Bonsanto

Formado em Administração de empresas, pós graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia.

 

Fontes:


https://www.nexojornal.com.br/extra/2021/07/29/Brasil-cai-em-ranking-de-liberdade-de-express%C3%A3o


https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2022/01/FENAJ-Relat%C3%B3rio-da-Viol%C3%AAncia-Contra-Jornalistas-e-Liberdade-de-Imprensa-2021.pdf


https://www.dw.com/pt-br/morte-de-jornalista-palestina-causa-indigna%C3%A7%C3%A3o/a-61779496


https://rsf.org/pt-br/ranking


https://www.nexojornal.com.br/expresso/2021/04/20/A-queda-do-Brasil-no-ranking-de-liberdade-de-imprensa