Moïse Kabagambe: a morte que desnuda o racismo no Brasil

Atualizado: 1 de set.

Nesta semana, o vídeo brutal da morte do refugiado congolês Moïse

Kabagambe (24) viralizou nas redes sociais, nele, Kabagambe aparece sendo

espancado até a morte por 3 homens em um quiosque na Barra da Tijuca ,

zona oeste do Rio. O fato reacendeu a discussão sobre o racismo no Brasil e a

banalização da violência na sociedade, sobretudo com pessoas pretas.

Arte do rosto de Moïse Kabagambe, reprodução das redes sociais. Nele é possível ver o rosto de Moïse, com um boné preto e camisa preta.
Arte do rosto de Moïse Kabagambe, reprodução das redes sociais.

Um dos homens que participou do espancamento que matou Kabagambe

chegou a declarar à polícia que precisava “extravasar a raiva” naquele dia e

outro que “tinha a consciência tranquila” pelo que fez. As declarações

demonstram uma frieza e nenhum arrependimento pelo modo como foi tirada a

vida de uma pessoa em um ponto com grande circulação de pessoas e visto

como um dos mais seguros para o turismo carioca.


A banalização da violência, em estados como Rio de Janeiro - com números

que aproximam-se de uma Guerra Civil – principalmente com a camada mais

pobre e preta da população brasileira nos relembra os inúmeros assassinatos

que estampam os jornais diariamente. Segundo o Instituto de Pesquisa

Econômica Aplicada (Ipea), no estudo realizado intitulado “Vidas Perdidas e

Racismo no Brasil”, o percentual de negros assassinados no Brasil é 132%

maior do que o de brancos. Poderíamos analisar o assassinato de Kabagambe

como algo fora desta linha? E se Kabagambe fosse um refugiado de algum

país europeu e tivesse uma pele clara, teria sido espancado de modo tão brutal

como foi?


O racismo no Brasil anda lado a lado com as estatísticas da violência que

aumentam cada vez mais, sobretudo nos grandes centros urbanos em que a

camada mais empobrecida se aglutina com pouco ou nenhum lazer,

saneamento básico e educação nas comunidades. Soma-se a isso, estas

pessoas que se tornam “invisíveis” aos olhos do poder público, abre uma

valiosa oportunidade de recrutamento para o crime organanizado, que tem seu

caminho livre para formar suas facções com extrema facilidade.


Impacto internacional


A Organização das Nações Unidas pediu à Justiça rapidez e transparência na

investigação do assassinato de Kabagambe, disse ainda que a família deve

ser reparada. E, já dizia Elza Soares “a carne mais barata do mercado é a

carne negra que vai de graça para os presídios e para debaixo do plástico”.

Será que de fato as vidas negras importam ou tornou-se apenas uma frase do

marketing social para as inúmeras campanhas antirracistas que se espalham

sem nenhum ou pouco propósito? Somente o tempo responderá, enquanto

isso, Kabagambe soma-se as estatísticas de pessoas pretas mortas no Brasil .

 

Texto escrito: Katiane Bispo – formada em Relações Internacionais e

especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais.

Site: @uma_internacionalista

 

Fontes:


Portal Géledes – artigo “Racismo explica 80% das causas de morte de negros no país”


Jornal Diário do Nordeste e CNN Brasil