O perigo de não olhar para cima

Atualizado: 1 de set.

Um cometa gigantesco em rota de colisão com a Terra pode ser negado?

Acredite se puder, este é o mote do filme Não olhe para cima, lançado pela Netflix em dezembro de 2021 e que bateu vários recordes de audiência, além de trazer uma gama de discussões nas midias sociais.

Imagem de divulgação do filme "Não olhe para cima", mostra os personagens principais olhando para cima em reação ao cometa que se aproxima.
Roteiro do flime foi escrito antes da pandemia do coronavírus, encaixando-se perfeitamente no atual cenário de crise. Netflix / Divulgação

O diretor e roteirista Adam McKay buscou um elenco estrelado, contando com Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Jonah Hill e Meryl Streep para nos apresentar a história de dois cientistas, com pouco prestígio, que realizaram a descoberta de suas vidas ao identificar um cometa de dimensões catastróficas em rota de colisão com a Terra. Ao tentar alertar a população e as autoridades o resultado foi basicamente a negação do que era óbvio e o desencadeamento de uma divisão pseudo-ideologica, que se tornou uma cortina de fumaça para ganhos eleitorais e financeiros de grupos poderosos.

Apesar das claras correlações com o período atual, o roteiro do filme foi escrito em 2019 e o projeto teve diversos atrasos em sua produção, principalmente devido aos impactos da pandemia em todos os meios, inclusive nas produções cinematográficas. Sendo assim, por mais que os roteiristas Adam McKay e David Sirota pudessem exercer todo seu poder de criatividade e inventividade ao criar uma sátira da realidade propositalmente exagerada, não chegaria nem perto de todas as situações reais e escabrosas que vivenciamos em âmbito nacional e mundial.


Catástrofes e negação


A alegoria de um fim eminentemente catastrófico devido a negação da ciência, irresponsabilidade das autoridades e governantes, foco em interesses financeiros a curto prazo, propagação de fake news e direcionamento tendencioso de mídia, tem relação de fato com algo bem real no mundo atual: o risco do aquecimento global e seus efeitos também catastróficos para o planeta.

Você pode estar se perguntando: relacionar o roteiro do filme (catástrofe imediata de um cometa) com o aquecimento global pode ser algo exagerado, não é? Alguns críticos também já exaltaram este ponto, mas eu digo que não, não é exagero! O aquecimento global devido ao fato de lançarmos gases de efeito estufa na atmosfera tem um potencial destrutivo tão grande quanto. Eis uma analogia interessante: o clima é como uma banheira sendo enchida lentamente, mesmo se fecharmos um pouco a torneira e deixarmos apenas um fio de água escorrendo, em algum momento a banheira acabará transbordando.

Bill Gates cita em seu livro "Como evitar um desastre climático. As soluções que temos e as inovações necessárias", 2021, Companhia das Letras: "Há dois números que você precisa ter em mente sobre mudanças climáticas. Um é 51 bilhões. O outro, zero. Cinquenta e um bilhões são as toneladas de gases de efeito estufa que o mundo lança à atmosfera anualmente.[...] Zero é que devemos almejar."
Uma montagem mostrando eventos relacionados ao clima: inundações, ondas de calor, seca, furacões, incêndios florestais e perda de gelo glacial.
Uma montagem mostrando eventos relacionados ao clima: inundações, ondas de calor, seca, furacões, incêndios florestais e perda de gelo glacial. (NOAA)

Mais uma vez você pode ser perguntar: o que não falta no mundo é gente rica com ideias grandiosas sobre o que os outros deveriam fazer ou que acreditam que a tecnologia pode consertar qualquer problema? Não se pode negar que realmente Bill Gates é um ricaço cheio de opiniões, mas devemos ressaltar que suas opiniões são embasadas e realmente apoiam muitos projetos interessantes.


Ainda citando o livro escrito por Bill Gates, uma reflexão interessante é como nos deparamos com fatos difíceis de entender ao estudar mudanças climáticas. Para começar, os números são muito grandes, quem consegue mensurar 51 bilhões de toneladas de gás? Outro problema é quando os dados são citados sem contexto. Sendo assim, no livro é apresentada uma linha de raciocínio para entender o que é muito ou que é pouco, qual é o custo, quais são ideias promissoras. Eis algumas perguntas a se fazer em qualquer conversa sobre o clima:


1) De quanto dos 51 bilhões de toneladas estamos falando? Ou seja, qual é a porcentagem de impacto?

2) Como isso impacta as 5 atividades produtoras de emissões: o que fabricamos, ligamos na tomada, produzimos para comer, transportamos e usamos para aquecer/resfriar coisas?

3) De quanta potência estamos falando? (Lembre-se: Quilowatt = residências, Gigawatt = cidades de porte médio. Centenas de gigawatts = países grandes e ricos).

4) De quanto espaço precisamos? Algumas fontes de energia ocupam mais espaço que outras e claro que existe um limite para a quantidade de terra e água disponíveis. A densidade de potência é o número relevante aqui (watts por metro quadrado).

5) Quanto vai custar? O motivo pra emitirmos tantos gases de efeito estufa é que nossas tecnologias energéticas atuais são de longe a solução mais barata de que dispomos. A maioria dessas soluções de carbono zero é mais cara que suas alternativas de combustível fóssil. Estes custos adicionais são chamados de Prêmios verdes. Se faz necessário entender se estes prêmios são baixos o suficiente para serem bancados pelos países de média renda.

Retomando o filme, este nos apresenta uma sátira ácida e que nos faz sorrir em alguns momentos, mas nos faz sorrir com aquele amargor na boca, com a aquela sensação de aquelas situações mostradas no filme podem e de fato acontecem na vida real, infelizmente!

Mas não percam as esperanças, o filme e o livro mencionados suscitam desafios enormes que temos pela frente para evitar uma catástrofe e lembram que agindo de forma inteligente e inovação, podemos buscar um mundo melhor para viver.


Mais detalhes do filme:
Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up) | EUA, 24 de dezembro de 2021
Direção: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay, David Sirota
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Rob Morgan, Jonah Hill, Mark Rylance, Tyler Perry, Timothée Chalamet, Ron Perlman, Ariana Grande, Scott Mescudi, Cate Blanchett, Meryl Streep

Texto escrito por Gustavo Longo

Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos.

 

Referências:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Don%27t_Look_Up

https://en.wikipedia.org/wiki/Don%27t_Look_Up

https://agenciadenoticias.uniceub.br/criticas-e-resenhas/nao-olhe-para-cima-filme-satiriza-o-negacionismo/

https://www.planocritico.com/critica-nao-olhe-para-cima/

https://www.youtube.com/watch?v=oJv9bxU3kXc&list=PL9tJjp1SZlmKrB77Zmjrvmc3xvsrEYt7h&index=25

https://www.youtube.com/watch?v=0NCt-m0ZDKk&list=PL9tJjp1SZlmKrB77Zmjrvmc3xvsrEYt7h&index=26

https://www.youtube.com/watch?v=vm4_YN-NzWE&list=PL9tJjp1SZlmKrB77Zmjrvmc3xvsrEYt7h&index=27

Livro "Como evitar um desastre climático. As soluções que temos e as inovações necessárias", Bill Gates, Companhia das Letras, 2021