Pesquisas de Opinião e a Política

As pesquisas de opinião foram inventadas na década de 1930 com 30 anos depois, ainda eram uma curiosidade, após 40 anos, começaram a ser uma ferramenta de relativa divulgação e, muito recentemente, com 20 ou 30 anos atrás, passaram a ocupar um papel de liderança nos processos políticos. Desde o início dos anos 80 tem se constituído num evento central ao processo de democratização da América Latina, sendo muito comum que os principais jornais e redes de TV de cada país informassem sobre estudos focados em assuntos de relevância pública ou vinculados a processos políticos.



Por meio disso, é necessário ter consciência de que todas as pesquisas são feitas de um jeito particular. Elas têm diferenças relevantes porque as metodologias utilizadas variam, no sentido de que algumas optam por sondagem pelo telefone, outras por entrevistas presenciais e outras entrevistas online. Além da metodologia, há várias questões a serem levadas em conta, por exemplo, a amostragem e a margem de erro adotada. Por isso, desde o nascimento das pesquisas como ferramenta de conhecimento, o papel delas foi tanto elogiado como demonizado, e o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil colocou no debate a credibilidade das pesquisas de opinião, perguntando se dá para confiar nelas ou não.


Mas o que é pesquisa de opinião? É a captação do sentimento da população naquele momento, sem garantia nenhuma de que esse comportamento ou resposta vai se manter até o dia das eleições. Os erros nas pesquisas são comuns e é muito difícil conseguir que as pesquisas captem as ondas de última hora.


Em vista disso, é usual ler a palavra predição associada à pesquisa porque a atenção do público foca, principalmente, nas pesquisas como instrumentos de predição. Pode prever o ganhador, a margem de proporção entre os principais partidos, ou prever a proporção de votos entre os partidos, porém variações podem ser observadas no sucesso das pesquisas na previsão de resultados eleitorais.


Um bom resultado em uma pesquisa promove a candidatura de um indivíduo, mesmo quando ele não está oficialmente na disputa, ou seja, também é útil para demonstrar certa atratividade eleitoral, obter apoio e fundos. Nesse caso, serve para persuadir os contribuintes de que um candidato em ascensão pode ganhar a indicação ou mesmo a eleição.


Fica evidente que os resultados das pesquisas influenciam a apresentação de campanhas em diversas esferas, tais como:


  • Apresentação dos programas. Na maioria dos países, as pesquisas são amplamente utilizadas para testar slogans, cartazes e temas de campanha, mas é difícil estabelecer casos reais em que as pesquisas influenciaram a formulação de políticas.

  • O estilo pessoal dos candidatos. Como as eleições são amplamente definidas a partir dos meios de comunicação de massas e, em particular, pela televisão, a personalidade de cada pessoa tornou-se muito relevante. Por isso, as pesquisas de opinião são utilizadas para monitorar o impacto das transmissões televisivas.

  • O uso de uma linguagem mais direta e coloquial nas comunicações. Hoje os políticos estão muito mais preocupados do que nunca em falar a linguagem que usam para seu público e as pesquisas podem mostrar aos políticos se a linguagem que usam, está surtindo o efeito desejado.


No que concerne aos partidos e aos candidatos, é um dos seus interesses evitar a impressão de que sofrerá uma derrota esmagadora ou alcançará uma vitória semelhante. Nisso há uma clara tentação de deturpar pesquisas, especialmente as privadas, em que se encontram métodos e resultados que raramente são submetidos ao escrutínio público. Em relação às pesquisas privadas, os partidos costumam realizar pesquisas "flash" durante os processos eleitorais para verificar as reações dos eleitores a determinadas publicações, discursos, transmissões e questões. A rapidez é essencial para que tais consultas tenham algum impacto, pois, no ritmo dos acontecimentos em uma campanha eleitoral, uma pesquisa pode ficar desatualizada em um ou dois dias. A informação pode tranquilizar o partido ou candidato sobre certos novos desenvolvimentos e ajudá-los a decidir se devem ou não reagir.

Retomando o início do texto, o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil colocou no centro do debate se dá para confiar em pesquisas de opinião. Para conseguir responder tal questionamento, é necessário levar em consideração uma série de pontos. O primeiro está relacionado às mudanças que acontecem na sociedade em geral, pois os eleitores, os seus gostos e suas preferências eleitorais se movem cada vez mais rápido. Essas mudanças em nossa sociedade junto à perda de identidades partidárias são de fato uma fonte de problemas para as pesquisas.


O segundo ponto está relacionado aos cidadãos que respondem cada vez menos as pesquisas. O terceiro está associado ao assunto da comunicação das pessoas e sua variação com o tempo. Hoje as pessoas se comunicam pelo telefone e celular, de modo que essa transformação foi mais rápida do que a capacidade de implementar novas técnicas. Por fim, o último ponto está associado às mudanças na mídia, em que a mídia mudou completamente nas últimas duas décadas. A questão da rapidez da informação, os 280 caracteres para compartilhar informação e a procura de um título original limitam o que a pesquisa pode dizer. Além dos pontos mencionados, fazendo um registro de pesquisas eleitorais no mundo, embora seja claro que se podem ter mais dificuldades que antes, as pesquisas estão muito mais certas do que erradas.


Assim, conclui-se que as pesquisas de opinião têm se tornado peça-chave no processo de democratização da América Latina, instrumento que apresenta problemas como qualquer outro, mas ainda assim é a melhor ferramenta, não apenas para entender a realidade, mas para também antecipar o que pode acontecer.


Texto escrito por Soledad Bravo

Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo

 

Referências


ARAUJO, Mora Y., et al. Un debate alrededor de las fortalezas y las debilidades de las encuestas electorales en América Latina. 2017.


ECHEGARAY, Fabián. O papel das pesquisas de opinião pública na consolidação da democracia: a experiência latino-americana. Opinião Pública, 2001, vol. 7, p. 60-74.

FONSECA, Roberto. Análise: afinal, dá para confiar em pesquisa eleitoral?. Correio Braziliense. 2022


KAVANAGH, Dennis. Las encuestas de opinión pública. La Sociología en sus Escenarios, 2011, no 24.