Setembro amarelo e a sociedade do cansaço

Atualizado: 7 de out.

A cada 47 segundos uma pessoa no mundo comete suicídio. 96,8% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais, com a depressão em primeiro lugar. Estatística extremamente assustadora, que torna a discussão sobre o tema proporcionalmente importante. Campanhas de conscientização e debates sobre o assunto se tornam cada vez mais necessárias.


Pessoa adulta sentada debruçada sobre uma mesa, com a mesa derretendo, uma representação de extremo cansaço.

São diversas as causas de transtornos mentais, podendo incluir genética, componentes bioquímicos e traumas. Dados do IBGE revelam um país cada vez mais doente, pois mostram que só em 2019, 16.3 milhões de pessoas com mais de 18 anos sofreram de depressão, um aumento de 34,2% desde 2013.


O que teria mudado? Certamente não as características genéticas em um intervalo de seis anos. Um dado mais curioso ainda revela que regiões urbanas registram a maior prevalência de casos de depressão (10,7%), enquanto nas áreas rurais o índice é de 7,6%. Observando esses dados, nós vamos analisar um fenômeno novo relativo a nossa sociedade atual que o filósofo coreano Byung-Chul Han chamou de Sociedade do Cansaço, definida como a mais nova forma de exploração no qual o indivíduo se torna uma espécie de explorador dele mesmo.


Estamos em tempos modernos de exploração aonde nos exploramos a nós mesmos em uma espécie de empreendedorismo individual aonde o coletivo não importa mais. A modernidade foi marcada por movimentos sociais, porém a sociedade contemporânea incentiva o contrário, a autocontemplação individual. Em tempos de redes sociais, nossa identidade pessoal é afirmada como se fosse uma empresa que necessita de visualizações e aprovações, tais como likes o tempo todo. A Sociedade do Cansaço é marcada pela afirmação de si mesmo, do eu e pelo narcisismo


No regime neoliberal, a exploração é disfarçada como autorrealização e não como auto exploração. Hoje em dia muitos escritórios e salas de estar estão todos misturados, é possível trabalhar em qualquer lugar seja com notebooks ou smartphones. Dessa forma, praticamente não há a separação entre a vida profissional e a vida pessoal. A contemporaneidade acaba produzindo indivíduos mecanizados, que buscam propósitos e metas exageradas tentando alcançar o sucesso, seja qual for o custo. Segundo Marx, o trabalho é uma constante auto desrealização.


Byung-Chul Han afirma que a sociedade atual é também multitarefa e que sua glamourização é equivocada pois na verdade a mesma tem origens primitivas. Na vida selvagem, o animal é obrigado a dividir a sua atenção em diversas atividades. Por isso, não é capaz de aprofundamento contemplativo - nem no comer nem no copular. O animal não pode mergulhar contemplativamente no que tem diante de si, pois tem de elaborar ao mesmo tempo o que tem atrás de si, seja para evitar de ser comido, vigiar a prole ou ficar de olho no parceiro. Por essas razões que Nietzsche dizia que por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie.


Na Sociedade do Cansaço, temos graves problemas contemporâneos como depressão, transtornos de déficit de atenção, ansiedade, depressão, esgotamento psíquico e físico.


Para Han nós estamos nos transformando em verdadeiros zumbis saudáveis, fitness e com botox. Mortos demais para viver e vivos demais para morrer. Otimizamos nossos corpos e nosso psicológico para a morte.


Aristóteles dizia que somente os filósofos, políticos e poetas eram realmente livres pois a eles foram dadas as capacidades de contemplação e aprofundamento das questões. O autoconhecimento e a delimitação de nossos espaços de lazer e de trabalho, são fundamentais para saúde de nossa sociedade. É necessário que recuperamos a vida contemplativa remediando nossa sociedade cada vez mais doente.


Estamos no Setembro Amarelo mas o debate e a prevenção devem ser constantes, procure ajuda profissional. Com atendimento gratuito, o CVV ( Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional e ajuda para prevenir o suicídio.


Telefone: 188

www.cvv.org.br


"As vezes, até o viver é um ato de coragem", Sêneca.

Texto escrito por Matheus Noronha

Formado em Mecânica Aeronáutica, estudante de Engenharia de Automação e Controle pela Universidade São Judas. Um amante da ciência e literatura e curioso por essência.

 

Fontes


Sobre a Brevidade da Vida - Sêneca

Sociedade do Cansaço - Byung-Chul Han

Pesquisa Nacional de saúde - Biblioteca IBGE