Talibã assume controle do Afeganistão

20 anos depois ter sido derrubado por uma coalizão militar liderada pelos EUA o grupo conquista todas as principais cidades do país, incluindo Cabul.

Integrantes do Talibã portando armas e granadas, vestindo roupas tradicionais do oriente médio.
Integrantes do Talibã. Fonte: Getty Images.

Neste domingo (15), a facção terrorista denominada Talibã tomou o controle da capital do Afeganistão, Cabul, concluindo com sucesso uma ofensiva de grande escala que se iniciou depois de que a maior parte das forças lideradas pelos EUA deixaram o país em julho deste ano.


A ofensiva do Talibã ocorre num período em que a maioria das potências ocidentais se retira do país, após 20 anos de operações militares. Mais de mil civis morreram no Afeganistão apenas no mês passado, de acordo com as Nações Unidas.


Presidente Ashraf Ghani deixa o país


O Talibã diz que tomou controle do palácio presidencial em Cabul após fuga de presidente Ghani. O grupo extremista defendia uma rendição pacífica do governo.


O ex-vice-presidente afegão Abdullah Abdullah disse em um vídeo publicado em suas redes sociais que Ghani "abandonou a nação".


Um alto oficial do Ministério do Interior afegão disse à agência de notícias Reuters que Ghani embarcou para o Tajiquistão, que faz fronteira com o norte do Afeganistão.


Ainda segundo a agência, o gabinete da Presidência afegã não confirma a movimentação do mandatário "por questões de segurança".


Avanço do Talibã no país


A rapidez com que o Talibã tem dominado territórios no Afeganistão surpreendeu muitas pessoas - capitais regionais pareciam cair como dominós.


Enquanto os insurgentes avançavam, o governo afegão tentava manter o controle sobre as cidades.


Os Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), entre eles o Reino Unido, gastaram boa parte dos últimos 20 anos treinando e equipando as forças de segurança do Afeganistão.


Inúmeros generais americanos e britânicos já declararam que haviam formado um Exército afegão mais poderoso e qualificado - promessas que hoje parecem vazias.


O governo afegão deveria, em tese, ter vantagem sobre os talibãs, com mais tropas à sua disposição. As forças de segurança do Afeganistão contam com 300 mil pessoas, pelo menos no papel. Isso inclui exército, força aérea e polícia.


Mas, na realidade, o país sempre teve dificuldades para alcançar as metas de recrutamento. O exército e a polícia têm uma história tumultuada, com número elevado de mortes, deserções e corrupção. Alguns comandantes inescrupulosos já se apoderaram de salários de tropas que simplesmente não existiam: os chamados "soldados fantasmas".


No seu último relatório ao Congresso dos EUA, o Inspetor Geral Especial para o Afeganistão (SIGAR) expressou "sérias preocupações sobre o efeito corrosivo da corrupção... e a questionável precisão dos dados sobre a robustez atual" das forças de segurança.


Direito das Mulheres


Quando o Talibã governou o Afeganistão pela última vez, de 1996 a 2001, as mulheres não podiam trabalhar, as meninas não podiam frequentar a escola e todas tinham que cobrir o rosto e estar acompanhadas por um parente do sexo masculino se quisessem sair de casa.


Desta vez, no entanto, porta-vozes do grupo garantem que irão respeitar os direitos das mulheres, com acesso à educação e ao trabalho – mas com a obrigatoriedade do uso do hijab, lenço que cobre os cabelos e rosto.


Eles também afirmaram que as mulheres terão autorização para deixar suas casas sem a companhia de um membro homem da família. Essa mudança no discurso vem sendo apontada por especialistas em Oriente Médio como uma forma do movimento se aproximar da comunidade internacional.

A cineasta afegã Sahraa Karimi (Foto: Instagram)

Estas promessas são confrontadas por Sahraa Karimi, uma cineasta afegã em Cabul, que disse à BBC sentir que o mundo havia virado as costas ao Afeganistão e temia um retorno a "tempos sombrios".


A vida sob o Talibã na década de 1990 forçou as mulheres a usar a burca — veste que cobre todo o corpo, e apresenta uma estreita tela, à altura dos olhos, através da qual se pode ver. Os islamistas radicais restringiram a educação para meninas com mais de 10 anos e punições brutais foram impostas, incluindo execuções pública

"Estou em perigo, (mas) não penso mais em mim", disse Karimi. "Penso em nosso país, penso em nossa geração. Fizemos muito para que essas mudanças ocorressem."

Freshta Karim, fundadora e diretora da biblioteca móvel Charmaghz em Cabul e defensora dos direitos das crianças, concorda.


"O Talibã não mudou. Eles nos consideram espólios de guerra. Então, aonde vão, obrigam as mulheres a se casar e acho que essa é a pior vingança que têm contra nós", disse ela à BBC.


"Esta é a maior guerra contra as mulheres da atualidade. E infelizmente o mundo está assistindo em silêncio", lamentou.