Vozes da Liberdade: Palestina

Atualizado: 5 de out.

Neste mês em que comemoramos a liberdade de imprensa, teremos esta coluna dedicada à memória da jornalista palestino-americana Shireen Abu Aqla, da rede Al Jazeera, morta durante a cobertura de uma operação israelense em um campo de refugiados na Cisjordânia em maio de 2022. Ela foi uma das primeiras repórteres do sexo feminino a trabalhar na Al Jazeera e cobriu o conflito palestino-israelense por 25 anos. Shireen Abu Aqla, presente!

Foto da jornalista palestino-americana Shireen Abu Akleh.
Shireen Abu Akleh. Foto: Al Jazeera

Cum Tacent, Clamant. “Enquanto se calam, gritam, isto é, o silêncio deles é eloquente” (Cícero, Catilinária I, 8). A escolha dessa máxima latina se justifica pois, no final de meu último artigo, prometi que neste falaria sobre histórias em quadrinhos (HQs) e os Balcãs, mas o conflito palestino-israelense novamente virou notícia na grande mídia no mês passado. Contudo, a voz palestina permanece silenciada e este pequeno artigo só deseja ressoar esse silêncio ensurdecedor que já dura décadas.


Para isso as HQs têm uma contribuição muito relevante, sobretudo as obras do artista e jornalista Joe Sacco. No final dos anos de 1990, escreve Edward Said que seu filho chegava em casa com o primeiro volume dos quadrinhos de Joe Sacco sobre a Palestina. Assim descreve Said: “Fui então imediatamente transportado ao período da primeira grande Intifada* (1987-1992)”. Palestina foi uma obra revolucionária sobre a narrativa do conflito envolvendo a disputa de território entre palestinos e israelenses na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.


Não pretendo me debruçar sobre os detalhes desse conflito. Para quem deseja se aprofundar numa versão não enviesada pela mídia estadunidense pró Israel, recomendo A questão da Palestina de Edward W. Said. Aqui quero explorar de que forma as HQs Palestina, uma breve reportagem chamada Por dentro da cidade de Hébron e o posterior Notas sobre Gaza podem nos ajudar a compreender um ponto de vista sobre esse conflito, muito pouco abordado em nosso meio: a visão dos palestinos.


Podemos dizer que Palestina contribuiu significativamente para mudanças na forma como uma guerra era retratada. Segundo José Arbex Jr., a primeira guerra televisa da história foi a Guerra do Golfo (1990-1991). Esta foi uma guerra sem corpos, na qual o telespectador assistia tudo em tempo real, mas filtrado pela câmera do cinegrafista e pela edição da emissora. Essa realidade editada criava a verdade sobre os inimigos do ocidente que, com o fim da guerra fria, deixava de ser a extinta União Soviética e passará a ser, em pouco tempo, os muçulmanos, tidos todos como terroristas. É nessa conjuntura que Joe Sacco viaja por dois meses e meio, em fins de 1991, a Israel e aos Territórios Ocupados na Cisjordânia.


Capa da HQ "Palestine" de Joe Sacco.

A HQ é resultado de um intenso trabalho de campo que pretendia retratar o lado palestino do conflito, a partir de um contato direto com o povo que sofre suas consequências cotidianas. O trabalho mostra que os palestinos vivem em uma zona de exceção, onde a guerra pauta todas as dimensões de suas vidas, como mostra o trecho a seguir: “No ônibus para Beit Sabour comecei a conversar com alguns palestinos que retornavam de Belém (às 9h30 da manhã) depois de esperar três horas em uma seleção de trabalhadores braçais, em Jerusalém. Não tiveram sorte. De qualquer forma, eles não tinham as licenças de trabalho adequadas, porque custam dinheiro e disseram, “onde arranjaríamos o dinheiro para a licença?” No fim das contas, eles não trabalham, não conseguem bancar uma universidade. As coisas sempre foram sofridas, mas agora os [imigrantes] russos pegam todos os serviços pequenos que antes os palestinos conseguiam, o trabalho braçal. Há trabalhos em Belém? Um deles tinha família grande e seu pai tinha que sobreviver com 40 shekels diários. Eles criticavam o processo de paz. “De que forma a Hannan Ashrawi [uma ativista palestina, na época envolvida nas negociações de paz de Madri] me representa?”, disse um deles, “ela já tem educação e carro e casa, e eu não tenho nada, preciso me preocupar em matar a minha fome”. Estavam desgostosos. O cara do meu lado disse que dois de seus amigos foram mortos na Intifada, outro também contou que perdeu um amigo. “Se não me deixarem viver em minha terra”, falou, “então vou morrer na ocupação”. “Terra é vida”, disse o mais falador... Outra coisa ele declarou, depois de afirmar já ter disparado uma arma: que há mais coisas a caminho, não só pedras. “Eles [os membros da resistência] têm bombas”, disse, “têm tudo”. (Sacco, J. Palestina, 2011, p.xxi).


Não pude deixar de destacar esse trecho mais longo, pois entende-se como emblemático sobre a importância dessa obra para termos a real dimensão do sofrimento de um povo sitiado e oprimido em sua própria terra. Todavia, sei que há argumentos de ordem histórica, religiosa e sociais que levam os israelenses a defender sucessivos governos sionistas que não reconhecem o direito palestino a seus territórios ocupados há séculos.


Em Por dentro da cidade de Hébron, Joe Sacco foi a Hébron em 2001, cidade mais conflituosa da Cisjordânia, e registra os argumentos de alguns israelenses e palestinos sobre as ocupações nesse território. Em entrevista com David Wilder, judeu estadunidense que se mudou para Hébron, o mesmo justifica esse movimento como um “o ápice do retorno às raízes”. Isso se dá porque, de acordo com seu ponto de vista, essa é a terra do patriarca Abraão e onde se iniciou o reinado de Davi, que os judeus passaram 700 anos sem puder fazer suas orações, neste local, devido ao domínio árabe. É a ocupação judaica que os restituiu esse direito. O problema é que, segundo os palestinos, agora são eles quem não podem mais acessar a mesquita Haram al-kalil, quarto local mais sagrado do islã. A manutenção dessa ordem, por parte dos israelenses, acontece por um forte poder de repressão com uso de armas de fogo contra residências de civis palestinos. São muitos os desenhos de Joe Sacco onde buracos de balas nas casas evidenciam a desproporção da força militar israelense.


Notas sobre Gaza é uma obra histórica refinada sobre dois episódios dessa guerra: o assassinato de um grande número de civis em Khan Younis em 1956, e posteriormente, outro massacre em Rafah. O trabalho de campo se deu entre 2002 e 2003 e contou com entrevistas e acesso a arquivos familiares e públicos.

Sacco registra uma conversa crucial que liga o passado e o presente do povo palestino: “Os homens e as mulheres de mais idade tinham muitas histórias a contar sobre pais e maridos mortos dentro da própria casa ou enfileirados nas ruas e fuzilados por soldados israelenses. Um desses entrevistados foi Abed El-Aziz El- Rantisi, membro do Hamas, o Movimento de Resistência Islâmica (que mais tarde foi morto por um míssil israelense). El-Rantisi, que tinha nove anos de idade em 1956, contou que seu tio foi assassinado. “Ainda me lembro do lamento e do choro do meu pai por seu irmão”, ele disse. “Não consegui dormir por meses [...]. Isso deixou uma ferida no meu coração que nunca vai cicatrizar. Estou quase chorando só de contar a história para vocês. Um ato como esse nunca pode ser esquecido [...]. Eles semearam o ódio no nosso coração”. (Sacco, J. Notas sobre Gaza, 2010, p.vii).

O passado é fundamental para compreendermos o presente dessa guerra. Depois de tantos desdobramentos, reconheço a dificuldade de tomar um lado nesse conflito, mas o silenciamento do lado palestino traz a necessidade de que a obra de Joe Sacco seja destacada como um marco àqueles que se preocupam em obter um conhecimento mais abrangente desse conflito. É também a História que mostra que israelenses e palestinos, povos semíticos irmãos, podem viver juntos, desde que os interesses escusos de algumas potências inescrupulosas não estivessem acima dos milhares de homens, mulheres e crianças mortos todos os dias nesse conflito injustificado. Contudo, enquanto o tempo não curar essas feridas abertas, que não deixemos de reconhecer e defender o direito dos palestinos a um Estado independente. Terra é vida.


Intifada: do árabe “agitação”, “levante”; em português “revolta”. É o nome popular atribuído às insurreições de palestinos contra Israel na Cisjordânia. 

Texto escrito por Marco Aurélio Cardoso Moura

Professor de Língua Portuguesa no Ensino Médio; formado em Letras pela USP e especialista em Juventude no Mundo contemporâneo pela FAJE-BH. Hoje é mestrando em Educação pela FE-USP e colunista do “Zero Águia”.

 

Referências bibliográficas


Sacco, J. Palestina. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2011.

Sacco, J. Notas sobre Gaza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Sacco, J. Por dentro da cidade de Hébron. In: Reportagens. São Paulo: Quadrinhos da Cia, 2016.

Said, E. W. A questão da Palestina. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.